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O bem pelo bem

O empresário José Aécio Fernandes Vieira Filho decidiu sair do lugar comum e criou o Instituto Constelação, uma iniciativa que precisa ser incentivada para atingir a plenitude dos seus objetivos, mas que já pode servir de inspiração para muitos líderes que são omissos do ponto de vista da realidade social onde construíram reconhecimento, prestígio e riqueza.

Por Drayton Nejaim e Luciana Leão, do Escritório de Jornalismo

José Aécio e Rogério da Fonte , fundadores do Constelação junto com a equipe e algumas crianças. A sociedade precisa de exemplos assim

Em 1955, o pernambucano João Cabral de Melo Neto escrevia em sua consagrada obra “Morte e Vida Severina” a saga de trabalhadores nordestinos que sofrem com a pobreza, a fome e a miséria no Sertão. Na ficção do poeta, Severinos e Marias em busca da “terra prometida” deixam suas casas e viajam para a capital tendo como leme o Rio Capibaribe. 

Nos dias de hoje, e fazendo uma releitura da narrativa de João Cabral, as temáticas da pobreza e da miséria permanecem juntas. Agora num contexto real, em que milhares de famílias recifenses convivem com a mesma saga de Severinos e Marias, em pleno século XXI. E quais seriam as coincidências de tal obra de ficção com a realidade que cerca a periferia da cidade? 

Entre becos e ruelas, de comunidades à beira do Rio Capibaribe, por exemplo, inúmeras famílias e suas crianças permanecem envoltas em ambientes violentos, onde imperam o tráfico de drogas, a prostituição, e a falta de perspectivas. 

Esse contexto social, violento sob todos os pontos de vista, foi essencial para motivar o empresário José Aécio Fernandes Vieira Filho a colocar em prática “uma ideia que há alguns anos não saía da sua cabeça”: fundar, junto com alguns amigos e parceiros, o Instituto Constelação (IC), com o propósito único de dar oportunidade àquelas crianças, uma chance de tornarem-se cidadãos. Já reconhecida pelo Ministério da Justiça como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), sem fins lucrativos, o IC saiu da imaginação e do idealismo do empresário e virou realidade. 

As estatísticas não revelam com exatidão o quanto é vasto o universo de crianças e famílias que vivem de maneira subumana na capital pernambucana, porém dados apontam que 15% da população do Estado de Pernambuco encontra-se na faixa de extrema pobreza. E é justamente nessa realidade que o Constelação resolveu atuar, ao escolher como ponto de partida comunidades situadas na zona sul da cidade, conhecidas como Beira Rio e Bode, que traçam suas histórias em cima de estatísticas violentas e miseráveis.

Com uma equipe de nove profissionais como instrutores, monitores, nutricionista, assistente social, e pedagoga, o Constelação já iniciou atendendo diretamente a 26 crianças que moram nesses bairros, considerados de alto grau de miséria e violência. A cada ano, nessas comunidades, dezenas de crianças ingressam na faixa da extrema pobreza, ou seja, não têm acesso a praticamente nada: educação, moradia, saúde, alimentação, esportes ou lazer.

São famílias e crianças que moram em habitações conhecidas como palafitas, erguidas em papelão e madeira e fincadas na beira do mangue. Não têm acesso a água, e convivem com esgoto a céu aberto.  Não são apenas algumas, mas centenas de moradias onde o chão para a garotada brincar está imerso em lama e as paredes que lhes protegem são feitas de papelão. Uma triste realidade para um Recife do século XXI.

A dona de casa Silvany Rodrigues dos Santos, 22 anos, é mãe de três filhos, sendo dois sob os cuidados do IC: Sophia, de 5 anos, e o irmão Wendell, de 6. Segundo ela, que está desempregada e vive apenas com a renda do programa Bolsa Família, ter o apoio do Constelação é muito importante para as crianças.

“Sabemos que lá os meus filhos estão sendo bem cuidados, alimentados. Meus filhos já sabem usar um pouco o computador. Com certeza, se tudo der certo, eles terão um futuro bem melhor que o nosso, que não temos trabalho. Agradecemos a oportunidade e faremos o possível para que eles permaneçam lá”, declara a jovem mãe.

O radar e as estatísticas oficiais não conseguem captar tais famílias, segundo relata José Aécio, por conta da violência. “Assistência social, posto de Saúde da Família e outros serviços públicos simplesmente não chegam lá. Portanto, as estatísticas reais ninguém tem”, diz ele.

Para montar o IC, a equipe e seus fundadores pesquisaram muito. Examinaram e visitaram experiências exitosas tanto no Brasil quanto fora dele e delas extraíram ensinamentos para compor o planejamento.

“Passamos dois anos adquirindo conhecimentos, entendendo o contexto, tratando dados e planejando. Queremos errar menos na execução. Nosso desejo é provar que, dada uma oportunidade, é possível convertermos uma criança sem nenhuma perspectiva em um cidadão como todos nós. Poderá ser um guia turístico, um técnico em informática, ou até um engenheiro, quem sabe, mas com certeza terá uma chance”, revela Aécio Filho. 

Sem metáforas, sem dourar a pílula, o objetivo do Constelação é dar oportunidade àquela criança que mora em áreas de extrema vulnerabilidade em todos os aspectos. “Pernambuco tem uma iniciativa como o Pacto pela Vida, e infelizmente ainda morre uma pessoa a cada duas horas e meia. Fazendo uma conta, vivemos em estado de guerra. A violência, portanto, está diretamente ligada à miséria, à pobreza. Isso me incomoda, eu tenho que fazer algo, pois o Poder Público infelizmente ainda é incompetente no trato com a esfera social”, opina o presidente do Instituto Constelação.

Para o Instituto, a mudança teria que começar onde fosse mais difícil de atuar, em locais nos quais os governos não conseguem chegar. “Acreditamos que, se conseguirmos consertar o pior, o melhor será mais fácil. Se for possível atenuar a miséria, a pobreza será mais amena”, acredita.

Partindo de um princípio básico de que todo o ciclo tem como elo fundamental a educação, e que será por meio da educação que as oportunidades serão geradas, o IC quer garantir que todas as crianças e adolescentes beneficiados estejam inseridos na rede pública de ensino e, no horário oposto ao escolar, por meio de uma rede de parceiros, oferecer reforço escolar, curso de segundo idioma, acompanhamento de saúde, nutricional, assistência social, esportes e lazer. 

Diferencial em modelo: independência

De acordo com os idealizadores do IC, a independência da instituição é um dos pilares diferenciais do modelo implantado. “Não temos nenhuma dependência do poder público. O Instituto Constelação é completamente privado, não aceita interferências. Isso é muito importante. É blindado. Não repassa de forma alguma dados nem informações das crianças e de suas famílias aos poderes públicos”, diz o presidente do IC.  

Jose Aécio considera isso fundamental, pois preserva a intimidade das famílias à medida que muitas vezes dentro delas há indícios de prática de atividades ilegais com as quais o Constelação não tem nada a ver. “Ao Constelação só interessa atender à criança e, na medida do possível, ajudar sua família. Mais nada”, acentua. “Nosso grande objetivo em longo prazo é desenvolver um modelo. Se tivermos competência e sorte, poderemos provar que por determinado custo, um número mágico que ainda desconhecemos, é possível converter uma criança sem nenhuma chance em um cidadão”, analisa.

Como parceiros dos mais importantes do projeto estão as famílias das crianças. É pré-requisito para ingresso no Constelação que os pais ou responsáveis assumam o compromisso com a instituição. “Acreditamos que nossa ação é uma via de mão dupla. Os pais e responsáveis têm que ser parceiros da instituição”, acrescenta a assistente social, Jaqueline Olegário.

O sonho do Constelação  é que o modelo implantado possa ser replicado pelo poder público no futuro. “A iniciativa privada vai pagar a conta e trabalhar durante muitos anos para tentar mostrar que é possível fazer as mudanças e dar oportunidade às crianças precocemente inseridas num contexto social violento e desumano”, acrescenta José Aécio Filho.

Foi assim que a médica Vera Cordeiro, do Saúde Criança, começou a resolver os problemas na área de saúde no Rio de Janeiro a partir de 1990. Implantou um modelo de gestão, hoje replicado no Rio de Janeiro, Minas Gerais e mais quatro capitais do Brasil, incluindo recentemente o Recife. Um modelo de referência, onde a educação, o bem estar da família e a qualidade de vida se somam às ações específicas da saúde pública como um todo. (LL)

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